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ontem fui jantar com a paz de preferir o silêncio
ao teu gritante autoritarismo.
não me acanharam os olhares de estranheza
ou a ausência de palavras deglutidas
e nada soube a discurso ensaiado
ou à azeda previsão do teu desequilíbrio.
a sobremesa soube a açucar e não a zanga.
*
contigo não como.
dói-me as tripas das palavras engolidas, que arranharam caminho até à minha alma
(um dia saberei abrir-lhes uma saída)
são como um rato gordo que roi devagar uma codea 
mas eu sou mais que pão, pai.
*
inegavelmente me faço da vida que me deste
inegavelmente sou muito do que recusaste
pensavas que eu era barro, não é?
mas sou como tu, pai
ninguem me molda por mandar.
deixaste-me no canto da bancada e secaste as mãos
não fosse o parvo amor do sangue eu não teria tentado tê-las nos meus ombros
ano após ano
frio após frio.
pai fizeste-me alta e deixas-me pequena
(e dás-me medo dos homens)
mas devo-te a força de continuar para sempre
e a codea que custa a engolir
e o comforto das futilidades.
se ao menos moedas aconchegassem…
(ontem aconcheguei-me com uma cadeira vazia)
*
sabes que uso um relógio teu,
talvez para sentir o segundo em que me voltes a olhar
e percebas o peso da ausência na presença
a chaga das palavras
a oca desilusão de não ser nunca bastante.
*
até lá janto comigo
até lá valho-me.

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